Em um cenário econômico onde cada centavo economizado faz diferença, as tarifas bancárias e de corretoras representam um custo silencioso que pode consumir parte significativa do orçamento familiar. Segundo dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), apenas entre janeiro e setembro de 2019, os cinco maiores bancos do Brasil arrecadaram impressionantes R$ 24,2 bilhões em tarifas. Para muitos brasileiros, esses custos podem representar aproximadamente um salário mínimo por ano, um valor que poderia ser direcionado para investimentos ou para a realização de objetivos pessoais.
O que torna essa situação ainda mais preocupante é que, historicamente, os reajustes das tarifas bancárias costumam superar significativamente a inflação. Entre junho de 2019 e maio de 2020, por exemplo, enquanto o IPCA registrou 1,88%, os pacotes de serviços bancários subiram, em média, 6%, e as tarifas avulsas tiveram alta de 5,1%. Essa disparidade demonstra que, sem uma estratégia adequada, os custos com serviços financeiros tendem a crescer desproporcionalmente ao longo do tempo.

Felizmente, o mercado financeiro brasileiro tem passado por transformações significativas nos últimos anos, com o surgimento de alternativas mais econômicas e a implementação de mudanças regulatórias que favorecem o consumidor. Em 2020, por exemplo, a B3 anunciou um novo modelo de tarifação para o mercado de ações, com redução de aproximadamente R$250 milhões nas tarifas pagas pelos clientes, beneficiando especialmente os pequenos investidores.
Neste artigo, exploraremos estratégias eficazes para reduzir custos com tarifas bancárias e de corretoras, desde a escolha das instituições financeiras mais adequadas até técnicas de negociação e aproveitamento de isenções. Com conhecimento e planejamento, é possível transformar esses gastos em oportunidades de economia e direcioná-los para objetivos financeiros mais relevantes.
O Impacto das tarifas bancárias no orçamento familiar
As tarifas bancárias são valores cobrados pelos serviços prestados pelas instituições financeiras, como manutenção de conta, transferências, saques e emissão de documentos. Embora individualmente possam parecer pequenas, quando somadas ao longo do ano, representam um montante considerável. De acordo com o Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), os brasileiros gastam, em média, um salário mínimo por ano com o pagamento dessas tarifas.
O que muitos consumidores não percebem é a disparidade de valores entre as diferentes instituições. Segundo pesquisa realizada pela Fundação Procon-SP, a diferença entre os serviços bancários prioritários pode chegar a impressionantes 447,50%. Para o serviço “pagamento de contas” utilizando a função crédito do cartão, por exemplo, o menor valor praticado foi de R$ 4,00 pelo Banco do Brasil, enquanto o Santander cobrava R$ 21,90 pelo mesmo serviço.
Essa variação significativa se estende também aos pacotes padronizados de serviços. Na comparação entre os bancos, a maior diferença de valores foi encontrada no Pacote Padronizado II, com o menor valor cobrado sendo R$11,90 no HSBC e o maior R$16,40 no Itaú, uma diferença de 37,82%. Já em 2021, os pacotes padronizados continuaram apresentando variações consideráveis entre as instituições, com diferenças que chegam a 34,05% no Pacote Padronizado II.
Outro fator preocupante é a tendência de aumento dessas tarifas acima da inflação. No comparativo de preços dos cinco maiores bancos em 2021, as tarifas avulsas apresentaram reajustes elevados, superando o IPCA de 8,35%. Esse padrão de reajustes acima da inflação tem se repetido ao longo dos anos, refletindo falhas no processo de regulamentação e falta de sensibilidade com os consumidores, especialmente em períodos de crise econômica.
É importante destacar que os bancos públicos, que teoricamente deveriam oferecer condições mais favoráveis aos clientes, também praticam aumentos significativos. Entre os pacotes, a maior alta em 2020 foi no “universitário” da Caixa, com 90% de aumento. E, entre as tarifas avulsas, Banco do Brasil e Caixa reajustaram a taxa para transferência entre contas do próprio banco em mais de 340%.
Para compreender melhor o impacto dessas tarifas no orçamento, considere o seguinte exemplo: uma pessoa que utiliza regularmente serviços bancários como transferências, saques e consultas, pode gastar entre R$30 e R$80 mensais apenas com tarifas, o que representa entre R$360 e R$960 por ano. Se esse valor fosse investido em uma aplicação com rendimento médio de 10% ao ano, em cinco anos resultaria em um montante entre R$2.170 e R$5.785.
A boa notícia é que existem alternativas para reduzir significativamente esses custos. Com o surgimento dos bancos digitais e a maior concorrência no setor financeiro, os consumidores têm mais opções para escolher instituições com tarifas reduzidas ou mesmo isentas. Além disso, a regulamentação do Banco Central estabelece que as instituições financeiras são obrigadas a oferecer pacotes padronizados de serviços, os quais costumam ter valores mais em conta e oferecem uma quantidade e variedade de serviços que atende à grande maioria dos clientes bancários.
Estratégias para reduzir custos com tarifas bancárias
A redução de custos com tarifas bancárias começa com o conhecimento e a comparação entre as diferentes opções disponíveis no mercado. Conforme destacado pelo Sebrae, “o primeiro passo é pesquisar, comparar taxas, juros e serviços ofertados pelos bancos e estudar as opções disponíveis para que você possa tomar uma decisão”. Com base nesse princípio, vamos explorar estratégias eficazes para minimizar esses gastos.
1. Conheça e compare os pacotes de serviços
Antes mesmo de abrir uma conta bancária, é fundamental verificar quais serviços são oferecidos pela instituição e quais as taxas cobradas por eles. Cada banco possui sua própria cesta de produtos e serviços, com valores e condições específicas. A comparação entre essas opções pode revelar diferenças significativas que impactarão diretamente no seu orçamento.
Uma alternativa interessante é optar por uma conta que oferece serviços gratuitos. Bancos como XP, Pan, Inter e Nubank são exemplos de instituições que isentam os clientes das principais taxas bancárias. Caso não seja possível encontrar uma opção totalmente gratuita, busque ao menos reduzir os valores cobrados, escolhendo pacotes que se adequem ao seu perfil de utilização.
2. Utilize os serviços essenciais gratuitos
De acordo com as normas do Banco Central, as instituições financeiras são obrigadas a oferecer gratuitamente os chamados serviços essenciais, que incluem:
4 saques por mês
2 extratos dos últimos 30 dias
2 transferências entre contas da mesma instituição
10 folhas de cheque* – sim, segundo dados da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), foram usados 137,6 milhões de cheques em 2024.
*exceto para contas que só permitem movimentação com cartão)
Esses serviços são gratuitos até um número máximo de utilização. Se você ultrapassar esses limites, pagará pelas operações adicionais. Portanto, planeje suas movimentações financeiras para aproveitar ao máximo esses serviços sem custos extras.
3. Opte por canais digitais
Os bancos geralmente cobram valores diferentes dependendo do canal utilizado para realizar operações. Serviços realizados presencialmente nas agências tendem a ser mais caros do que aqueles feitos por canais digitais, como internet banking e aplicativos móveis.
Além de economizar em tarifas, o uso de canais digitais também permite evitar o recebimento de contas em papel, o que pode gerar cobranças adicionais. Solicite que suas faturas e extratos sejam enviados por e-mail ou consulte-os diretamente no site ou aplicativo do seu banco.
4. Mantenha um saldo mínimo ou médio
Alguns bancos oferecem isenção de taxas se você mantiver um saldo mínimo ou médio em sua conta. Verifique se a instituição financeira de sua escolha tem essa opção e, se possível, organize suas finanças para atender a esses requisitos.
Por exemplo, se um banco exige um saldo médio de R$5.000 para isenção da tarifa de manutenção de conta (que pode custar cerca de R$30 mensais), e você mantém esse valor aplicado em um CDB do próprio banco rendendo 100% do CDI (aproximadamente 10% ao ano), você economizará R$360 em tarifas anuais, enquanto seu dinheiro continua rendendo cerca de R$500 no mesmo período.
5. Negocie com seu banco
Não tenha receio de negociar condições mais favoráveis com sua instituição financeira. Se você é um cliente de longo relacionamento ou possui um volume significativo de investimentos, há boas chances de conseguir redução ou isenção de tarifas.
Posicione-se como um cliente insatisfeito que busca os mesmos benefícios oferecidos aos novos clientes. Lembre a instituição que ela chegou onde está graças a clientes antigos como você. Em muitos casos, os bancos estão dispostos a fazer concessões para manter clientes valiosos.
6. Considere bancos digitais e fintechs
O surgimento das fintechs revolucionou o mercado financeiro brasileiro, oferecendo alternativas com custos significativamente menores. Segundo o relatório Radar FintechLab de junho de 2019, já haviam sido mapeadas quase 550 fintechs no país.
Essas instituições geralmente operam com estruturas mais enxutas e, consequentemente, conseguem oferecer serviços com tarifas reduzidas ou mesmo gratuitas. A concorrência gerada por elas também tem forçado os bancos tradicionais a reverem suas políticas de tarifação.
7. Utilize pacotes padronizados
As instituições financeiras são obrigadas pelo Banco Central a oferecer pacotes padronizados de serviços, que costumam ter valores mais acessíveis e oferecem uma quantidade e variedade de serviços que atende à maioria dos clientes.
Esses pacotes se dividem em I, II, III e IV, diferenciando-se pela quantidade de serviços oferecidos e pela inclusão de itens como fornecimento de folhas de cheque e transferências via DOC e TED. Analise cuidadosamente qual deles melhor se adequa às suas necessidades.
8. Considere contas universitárias
Se você é estudante universitário, pode se beneficiar de contas específicas que oferecem condições especiais, incluindo isenção de diversas tarifas. A maioria dos bancos oferece esse tipo de conta, bastando apresentar comprovante de matrícula em instituição de ensino superior.
Reduzindo custos com corretoras de valores
Além das tarifas bancárias, os investidores também precisam estar atentos aos custos cobrados pelas corretoras de valores. Essas taxas podem impactar significativamente o retorno dos investimentos, especialmente no longo prazo. Vamos explorar algumas estratégias para minimizar esses custos.
1. Compare as taxas de corretagem
As taxas de corretagem podem variar consideravelmente entre as diferentes instituições. Algumas corretoras oferecem operações gratuitas para determinados tipos de investimentos, como ações e ETFs, enquanto outras cobram valores fixos ou percentuais sobre o montante negociado.
Em 2020, a B3 anunciou mudanças significativas em seu modelo de tarifação para o mercado de ações, beneficiando especialmente os pequenos investidores. Com as mudanças, a taxa mensal de manutenção de conta, que chegava a cerca de R$110 ao ano, foi zerada, permitindo que as corretoras ampliassem sua base de clientes pessoa física. Além disso, a tarifa cobrada na negociação de ações na B3 foi reduzida em cerca de 10% para pessoas físicas.
2. Aproveite isenções para pequenos investidores
Clientes com até R$20 mil de saldo em custódia numa mesma corretora são isentos das demais taxas de manutenção de conta, como as cobranças sobre o pagamento de proventos e valor em custódia. Essa medida beneficia aproximadamente 65% da base de investidores pessoa física que têm saldo em contas de renda variável na B3.
3. Considere corretoras sem tarifas
Algumas corretoras oferecem contas sem tarifas, permitindo que você compre e venda investimentos sem cobranças adicionais. Essas contas são especialmente populares para investimentos em ações, ETFs e fundos mútuos.
Ao escolher uma corretora, pesquise aquelas que oferecem contas sem taxas de manutenção, sem comissões de negociação e sem encargos ocultos. No entanto, lembre-se de considerar também a reputação e a segurança da instituição.
4. Invista em fundos de baixo custo
Os fundos de investimento de baixo custo são projetados para minimizar as despesas associadas aos investimentos. Esses fundos geralmente possuem taxas de administração mais baixas do que outros, o que significa que uma maior parte do seu dinheiro está efetivamente trabalhando para você.
Pesquise e escolha fundos de investimento que ofereçam um equilíbrio entre baixas tarifas e bom desempenho. Lembre-se que, no longo prazo, mesmo pequenas diferenças nas taxas podem resultar em impactos significativos no retorno final do investimento.
5. Automatize seus investimentos
Automatizar seus investimentos é uma maneira eficiente de reduzir tarifas e aproveitar ao máximo seu dinheiro. Ao configurar transferências automáticas para investimentos regulares, você pode evitar tarifas de saque e transferência e aproveitar os benefícios do investimento regular.
Além disso, a automação pode ajudar a evitar atrasos no processo de investimento e garantir que você esteja constantemente contribuindo para o crescimento de seu patrimônio.
Alternativas aos bancos tradicionais
Além de otimizar o uso dos serviços bancários convencionais, vale a pena explorar alternativas que podem oferecer condições mais vantajosas. Vamos conhecer algumas opções.
1. Cooperativas de crédito
As cooperativas de crédito são instituições financeiras sem fins lucrativos que oferecem serviços similares aos bancos tradicionais. Essas instituições geralmente possuem tarifas mais baixas e taxas de juros mais favoráveis em comparação com os bancos convencionais.
Ao se tornar membro de uma cooperativa de crédito, você pode desfrutar de serviços bancários essenciais sem as altas tarifas associadas. Além disso, como cooperado, você participa dos resultados da instituição, o que pode resultar em benefícios adicionais.
2. Bancos Digitais
Os bancos digitais operam exclusivamente online, sem agências físicas, o que reduz significativamente seus custos operacionais. Essa economia é frequentemente repassada aos clientes na forma de tarifas reduzidas ou inexistentes.
Essas instituições geralmente oferecem uma ampla gama de serviços gratuitos, como transferências, saques e emissão de cartões. Além disso, costumam disponibilizar aplicativos intuitivos e suporte 24 horas, proporcionando uma experiência bancária conveniente e econômica.
3. Fintechs de investimento
As fintechs de investimento são plataformas digitais que oferecem acesso a diversos produtos financeiros, muitas vezes com custos reduzidos ou nulos. Essas plataformas democratizaram o acesso ao mercado financeiro, permitindo que pequenos investidores tenham acesso a oportunidades antes restritas a grandes capitais.
Muitas dessas fintechs não cobram taxas de corretagem para operações com ações e ETFs, nem taxas de custódia para diversos tipos de investimentos. Isso permite que o investidor maximize seus retornos, direcionando mais recursos para os próprios investimentos.
A redução de custos com tarifas bancárias e de corretoras é uma estratégia financeira que pode resultar em economias significativas ao longo do tempo. Como vimos, os brasileiros gastam, em média, um salário mínimo por ano com essas tarifas, um valor que poderia ser direcionado para investimentos ou para a realização de objetivos pessoais.
As estratégias apresentadas neste artigo – desde a comparação entre instituições financeiras até a negociação de condições mais favoráveis – oferecem caminhos concretos para minimizar esses custos. A escolha de pacotes adequados ao seu perfil de utilização, o aproveitamento dos serviços essenciais gratuitos e a migração para plataformas digitais são medidas que podem ser implementadas imediatamente.
É importante ressaltar que o mercado financeiro brasileiro tem passado por transformações significativas nos últimos anos, com o surgimento de alternativas mais econômicas e a implementação de mudanças regulatórias que favorecem o consumidor. Essas mudanças têm gerado uma concorrência saudável, forçando as instituições tradicionais a reverem suas políticas de tarifação.
Como em qualquer decisão financeira, a chave para o sucesso está no conhecimento e no planejamento. Mantenha-se informado sobre as condições oferecidas por diferentes instituições, analise cuidadosamente seu perfil de utilização de serviços financeiros e não hesite em negociar ou migrar para alternativas mais vantajosas. Lembre-se: pequenas economias, quando acumuladas ao longo do tempo, podem fazer uma grande diferença em sua jornada financeira.
Fontes e Referências:
- Tarifas Bancárias – PROCON-SP: https://www.procon.sp.gov.br/tarifas-bancarias/
- J17 Bank – 60 dicas para economizar dinheiro em 2025: https://j17bank.com.br/blog/60-dicas-para-economizar-dinheiro/ (novembro/2024)
- Mobills – Como diminuir tarifas bancárias: 9 dicas para poupar muito dinheiro: https://www.mobills.com.br/blog/diminuir-tarifas-bancarias/ (setembro/2024)
- Valor Econômico – Bancos digitais avançam e pressionam tarifas bancárias: https://valor.globo.com/financas/noticia/2025/02/bancos-digitais-avancam.ghtml (fevereiro/2025)
- InfoMoney – Quer economizar? Veja 11 maneiras de eliminar gastos extras a partir de hoje: https://www.infomoney.com.br/minhas-financas/quer-economizar-veja-11-maneiras-de-eliminar-gastos-extras-a-partir-de-hoje/ (dezembro/2019)
- Estadão – Pesquisa do Procon-SP encontra diferença de 492% em tarifas bancárias: https://einvestidor.estadao.com.br/ultimas/pesquisa-procon-tarifas-bancarias/ (maio/2023)
- Estadão – Tarifas bancárias: veja como trocar para conta gratuita: https://www.estadao.com.br/economia/banco-como-abrir-conta-gratuita-mudar-para-isencao-taxas-gratis-nprei/ (agosto/2024)
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